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quinta-feira, 11 de junho de 2009
Caminhamos ao encontro do amor e do desejo
"Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar."
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albert camus,
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sábado, 30 de maio de 2009
O amor
"As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fractura-nos. Estás inteiro e depois estás fracturado, aberto. Ela foi um corpo estranho introduzido na tua totalidade. E durante um ano e meio lutaste para o incorporar. Mas nunca serás inteiro enquanto não o expelires. Ou te livras dele ou o incorporas através da autodeformação. "
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Um verso
"Quando lemos versos que são realmente admiráveis, realmente bons, temos a tendência para o fazer em voz alta. Um verso bom não permite ser lido em voz baixa, ou em silêncio. Se pudermos fazê-lo, não é um verso válido: o verso exige ser pronunciado. O verso recorda sempre que foi uma arte oral antes de ser uma arte escrita, recorda que foi um canto."
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jorge luis borges,
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Muda de vida ou muda de poema
Um poema não é uma coisa que se coloca sobre o teu dia como um condimento sobre o teu almoço. A vida de uma pessoa não tem material semelhante a nada que conheças. Existir é feito de peças impossíveis de copiar. E a poesia não entra nesse material único - a vida de uma pessoa - como o avião no ar ou o acidente do avião na terra dura. Um poema não é manso nem meigo, não é mau nem ilegal.
Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor. O que é a fita métrica comparada com algo intenso? Há poemas que explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa. Muda de vida ou, claro, muda de poema.
Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor. O que é a fita métrica comparada com algo intenso? Há poemas que explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa. Muda de vida ou, claro, muda de poema.
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gonçalo m. tavares,
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segunda-feira, 30 de março de 2009
O ser humano
"O ser humano reconstrói-se permanentemente e corrige-se constantemente, entre o desejo, a cinza, a paixão e a vontade."
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baptista bastos,
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domingo, 29 de março de 2009
E depois falámos
"E depois falámos, esquecendo-nos de ontem e de amanhã, porque as palavras são como o vinho, precisam de repouso e de tempo para que o veludo da voz entregue o seu sabor definitivo"
Liberdade
"Antes que a ideia de Deus esmagasse os homens, antes dos autos de fé, das perseguições religiosas da Inquisição e do fundamentalismo islâmico, o Mediterrâneo inventou a arte de viver. Os homens viviam livres dos castigos de Deus e das ameaças dos Profetas: na barca da morte até à outra vida, como acreditavam os egípcios. E os deuses eram, em vida dos homens, apenas a celebração de cada coisa: a caça, a pesca, o vinho, a agricultura, o amor. Os deuses encarnavam a festa e a alegria da vida e não o terror da morte. Antes da queda de Granada, antes das fogueiras da Inquisição, antes dos massacres da Argélia, o Mediterrâneo ergueu uma civilização fundada na celebração da vida, na beleza de todas as coisas e na tolerância dos que sabem que, seja qual for o Deus que reclame a nossa vida morta, o resto é nosso e pertence-nos – por uma única, breve e intensa passagem. É a isso que chamamos liberdade – a grande herança do mundo do Mediterrâneo.
(...) Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos. "
(...) Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos. "
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miguel sousa tavares,
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domingo, 15 de março de 2009
Redescobrindo afectos
"Então, ela disse:-"Por causa dessa guerra, vou aplicar-me mais às delicadezas". E isto dizendo, foi acrescentando:-"O que conta mesmo são as amizades, o afeto, as coisas simples da vida".
Olhei-a com uma correspondente ternura. E ela continuava: -"Vou chamar amigos para jantar. Vou reunir mais gente de que gosto. Quero dispor a mesa, acender velas. Não vou ficar aqui apenas me envenenando com essas notícias".
Ela dizia isto como quem dissesse:-"Olha ali uma gaivota num balé de asas brancas sobre a lagoa". Ou então, como se interropesse um assaltante que lhe apontasse uma arma no rosto e dissesse: -"Espere um pouco que vou ali comprar flores". Ou, então, como quem cortando uma discussão tensa, advertisse:- Ih! Ainda não dei a ração à minha cachorrinha".
Abrigar-se na ternura.
Voltar às delicadezas.
Tirar da banalidade o oculto mel.
Portanto, se a guerra provoca em nós os piores sentimentos, pode, numa reação igual e contrária, despertar a urgência de coisas cotidianamente humanas.
Uma vez num texto de Anibal Machado, -mineiro que nem eu, quer dizer, melhor que eu, uma vez li num texto de Anibal Machado, - cujas poesias ainda penso em reunir num livro com autorização de seus herdeiros, uma vez li num texto de Anibal uma frase que dizia que ele se ligava melhor às coisas no momento mesmo de perdê-las. Já Drummond, mineiro que nem eu, ou melhor, mineiro como nenhum de nós, Drummond dizia que amar o perdido deixa confundido o coração.
Perder a paz.
Ou roubar à guerra a paz de que carecemos?
Sempre pensei em como seria a rotina de um pai ou mãe que têm um filho na guerra. Ele está lá sabendo que em certos momentos, mais que em outros, pode cair morto. A mãe está aqui e tem que arranjar as flores num jarro como se esse fosse o gesto mais importante do mundo. O pai está indo para o escritório e dá bom dia e alô a quem passa, como se um pedaço dele não estivesse prestes a morrer em alguma parte.
Entendo cada vez mais os que se retiram das pompas do mundo, buscando numa casa de campo o reencontro consigo mesmo através das flores, bordados e animais.
Hoje é domingo. E as montanhas em torno estão à nossa disposição levando o nosso olhar em ondas até o horizonte. Ou podemos ir ao quintal antigo onde havia jabuticabeiras, e onde há sempre segredos a descobrir. Da janela podemos ver coisas banalmente tocantes ocorrendo na calçada: um cão enrodilhado, uma criança na bicicleta ou simplesmente as àrvores perfiladas. Cá dentro os objetos da casa estão nos dizendo coisas intimamente preciosas. Olhemos com ternura o corpo amado amanhecendo.
Sim, reunir amigos, potencializar ternuras e afetos.
Pois, apesar de tudo, é primavera."
Olhei-a com uma correspondente ternura. E ela continuava: -"Vou chamar amigos para jantar. Vou reunir mais gente de que gosto. Quero dispor a mesa, acender velas. Não vou ficar aqui apenas me envenenando com essas notícias".
Ela dizia isto como quem dissesse:-"Olha ali uma gaivota num balé de asas brancas sobre a lagoa". Ou então, como se interropesse um assaltante que lhe apontasse uma arma no rosto e dissesse: -"Espere um pouco que vou ali comprar flores". Ou, então, como quem cortando uma discussão tensa, advertisse:- Ih! Ainda não dei a ração à minha cachorrinha".
Abrigar-se na ternura.
Voltar às delicadezas.
Tirar da banalidade o oculto mel.
Portanto, se a guerra provoca em nós os piores sentimentos, pode, numa reação igual e contrária, despertar a urgência de coisas cotidianamente humanas.
Uma vez num texto de Anibal Machado, -mineiro que nem eu, quer dizer, melhor que eu, uma vez li num texto de Anibal Machado, - cujas poesias ainda penso em reunir num livro com autorização de seus herdeiros, uma vez li num texto de Anibal uma frase que dizia que ele se ligava melhor às coisas no momento mesmo de perdê-las. Já Drummond, mineiro que nem eu, ou melhor, mineiro como nenhum de nós, Drummond dizia que amar o perdido deixa confundido o coração.
Perder a paz.
Ou roubar à guerra a paz de que carecemos?
Sempre pensei em como seria a rotina de um pai ou mãe que têm um filho na guerra. Ele está lá sabendo que em certos momentos, mais que em outros, pode cair morto. A mãe está aqui e tem que arranjar as flores num jarro como se esse fosse o gesto mais importante do mundo. O pai está indo para o escritório e dá bom dia e alô a quem passa, como se um pedaço dele não estivesse prestes a morrer em alguma parte.
Entendo cada vez mais os que se retiram das pompas do mundo, buscando numa casa de campo o reencontro consigo mesmo através das flores, bordados e animais.
Hoje é domingo. E as montanhas em torno estão à nossa disposição levando o nosso olhar em ondas até o horizonte. Ou podemos ir ao quintal antigo onde havia jabuticabeiras, e onde há sempre segredos a descobrir. Da janela podemos ver coisas banalmente tocantes ocorrendo na calçada: um cão enrodilhado, uma criança na bicicleta ou simplesmente as àrvores perfiladas. Cá dentro os objetos da casa estão nos dizendo coisas intimamente preciosas. Olhemos com ternura o corpo amado amanhecendo.
Sim, reunir amigos, potencializar ternuras e afetos.
Pois, apesar de tudo, é primavera."
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affonso romano de sant’anna,
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quinta-feira, 5 de março de 2009
Arte
"No início do século XIX, Hegel argumentou que a história humana se desenvolvia em sentido crescente, criando sociedades cada vez mais sofisticadas, equilibradas e justas. Há 15 anos atrás, o politólogo americano Francis Fukuyama concluiu que a humanidade tinha finalmente chegado ao fim desta história e alcançado a organização ideal: um sistema bicéfalo de democracia liberal e capitalismo global. Duas décadas depois, esta esperança algo ingénua tornou-se um fracasso óbvio. As diligências da administração Bush para exportar a ‘sua’ democracia, deram no que está à vista: guerra, intolerância, desprezo pelo direito internacional. A globalização do capitalismo correu bastante melhor, mas os resultados também são conhecidos: uma fossa crescente entre ricos e pobres, uma catástrofe ecológica à escala mundial e a supremacia da ganância e do consumismo.
Numa coisa Fukuyama tinha razão: a falta de alternativas credíveis é estrondosa. Para manter o nosso nível de vida, diz-se, a economia precisa de crescer e para isso acontecer, os nossos governos e as nossas empresas têm de primar no jogo dos mercados. Hoje em dia, o raciocínio é tão impregnado que até parece uma lei da natureza. Não é de estranhar, dizem os pensadores da biopolítica: a sofisticação da nossa sociedade de consumo é tal, que os indivíduos interiorizaram a sua própria opressão. Se produzir e consumir estão intimamente interligados (a produção alimenta o consumo e o consumo sustenta a produção), formando a base da nossa prosperidade, nada é mais importante do que formatar o indivíduo enquanto produtor/consumidor. O primeiro objectivo da política tornou-se o controlo e a gestão da população, do bios, da vida de cada um de nós. E nós assim o queremos, porque nenhum preço parece alto demais para a segurança e a prosperidade, nada parece mais importante do que salvaguardar e aumentar a capacidade individual de consumir. Instalou-se a sensação de que a nossa liberdade coincide com o nosso poder de compra.
Em tempos de pensamento único precisamos de vozes dissonantes. Quando a vida parece afunilar-se num consumismo frenético, precisamos de descobrir outras vias. Já não há ninguém que ouse sugerir que a arte pode salvar o mundo, mas contra todas as tendências de massificação e entretenimento (pois, a arte também se tornou num produto de consumo), há quem continue a ver e praticá-la como forma de resistência. Como uma tentativa de visitar os mundos que se escondem atrás do mundo aparente. Como uma maneira de questionar o que é geralmente aceite, facilmente absorvido ou simplesmente cómodo.(...)"
(texto introdutório do alkantara festival 2008)
Numa coisa Fukuyama tinha razão: a falta de alternativas credíveis é estrondosa. Para manter o nosso nível de vida, diz-se, a economia precisa de crescer e para isso acontecer, os nossos governos e as nossas empresas têm de primar no jogo dos mercados. Hoje em dia, o raciocínio é tão impregnado que até parece uma lei da natureza. Não é de estranhar, dizem os pensadores da biopolítica: a sofisticação da nossa sociedade de consumo é tal, que os indivíduos interiorizaram a sua própria opressão. Se produzir e consumir estão intimamente interligados (a produção alimenta o consumo e o consumo sustenta a produção), formando a base da nossa prosperidade, nada é mais importante do que formatar o indivíduo enquanto produtor/consumidor. O primeiro objectivo da política tornou-se o controlo e a gestão da população, do bios, da vida de cada um de nós. E nós assim o queremos, porque nenhum preço parece alto demais para a segurança e a prosperidade, nada parece mais importante do que salvaguardar e aumentar a capacidade individual de consumir. Instalou-se a sensação de que a nossa liberdade coincide com o nosso poder de compra.
Em tempos de pensamento único precisamos de vozes dissonantes. Quando a vida parece afunilar-se num consumismo frenético, precisamos de descobrir outras vias. Já não há ninguém que ouse sugerir que a arte pode salvar o mundo, mas contra todas as tendências de massificação e entretenimento (pois, a arte também se tornou num produto de consumo), há quem continue a ver e praticá-la como forma de resistência. Como uma tentativa de visitar os mundos que se escondem atrás do mundo aparente. Como uma maneira de questionar o que é geralmente aceite, facilmente absorvido ou simplesmente cómodo.(...)"
(texto introdutório do alkantara festival 2008)
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mark deputter,
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domingo, 1 de março de 2009
A pintura
"A pintura é uma coisa suspensa.
Resulta da interrupção de um último gesto e ali fica, eternamente inacabada, à espera do olhar que a completa.
A pintura completa-se no interior da tua cabeça.
A pintura, suspensa no tempo, espera por ti.
Será tudo o que fores capaz de fazer dela.
Quando a olhas ela brilha de vaidade, ajeita-se e faz pose, arma-se em boa.
Insinua-se, tenta seduzir-te.
Quer contar-te uma história.
A tua história.
A pintura, sem o saber, é como tu.
E tu és parte da pintura que contemplas.
Ela dir-te-á aquilo que quiseres saber.
Sejas tu capaz de a ver e ela mostra-se.
Seja ela capaz de te descobrir e irá ao teu encontro."
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Não conformar
"Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem."
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agostinho da silva,
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